Sessões promovem reflexão sobre humanidades e poesia na era digital
18 October 2026 | Social, Educação e Formação, Visitas
St. Paul’s School recebeu a primeira sessão deste ano letivo das St. Paul’s Conferences, dedicada ao tema “A
importância das Humanidades e do ensino da poesia em tempos de insensibilidade digital”.
A iniciativa reuniu famílias, colaboradores, alunos e elementos da comunidade, proporcionando um momento de
reflexão sobre os desafios contemporâneos da educação, da leitura e da formação humanística numa sociedade
marcada pela aceleração tecnológica e pela crescente digitalização das relações humanas e dos processos de
aprendizagem.
A sessão contou com o palestrante António Carlos Cortez, poeta, professor, crítico literário e ensaísta,
recentemente distinguido com o Prémio de Ensaio Jacinto Prado Coelho 2026, amplamente reconhecido como
uma das mais relevantes vozes da literatura portuguesa contemporânea.
Durante as sessões, foi defendida a ideia de que um dos maiores desafios da educação nos nossos dias consiste
na inevitável promoção das competências digitais, assim como na caída em desuso da visão do professor
enquanto Magister, entendido como referência intelectual e mediador do conhecimento, na formação do
pensamento crítico e na transmissão dos valores culturais e humanísticos indispensáveis à formação integral dos
alunos.
Num debate particularmente relevante para os desafios atuais da escola, foi ainda sublinhado que o princípio
orientador da educação deve assentar no autoconhecimento, entendido como condição fundamental para o
desenvolvimento pessoal, intelectual e ético dos jovens. Refletiu-se ainda sobre os alunos viverem hoje
excessivamente orientados para a obtenção de resultados e para a lógica da performance, em detrimento do
aprofundamento do pensamento, da imaginação e da capacidade de projeção.
Segundo António Carlos Cortez, a excessiva exposição ao digital tem contribuído para um progressivo afastamento
dos hábitos de leitura, realidade agravada por uma visão utilitarista da educação que privilegia a aquisição de
competências orientadas para o sucesso material e profissional. Esta tendência, defendeu, conduz
frequentemente os jovens para modos de atuação mais mecânicos, limitando o tempo dedicado à reflexão, à
contemplação e ao exercício do pensamento crítico.
O orador alertou ainda para a crescente dificuldade que muitos alunos revelam em mobilizar a imaginação como
ferramenta de conhecimento. Sem o exercício da imaginação, torna-se mais difícil criar imagens mentais a partir
do pensamento, estabelecer relações simbólicas e compreender os múltiplos sentidos da linguagem. Esta
limitação traduz-se frequentemente em dificuldades na interpretação do sentido figurado, da metáfora e de
outras formas de expressão literária, empobrecendo não apenas a experiência da leitura, mas também a
capacidade de compreender a complexidade do mundo.
Neste contexto, António Carlos Cortez defendeu a importância da poesia enquanto instrumento privilegiado de
formação intelectual e humana. Definiu o poema como um verdadeiro artefacto de linguagem, resultado de um
rigoroso trabalho cerebral sobre as palavras, a gramática e os significados, capaz de estimular o pensamento, a
imaginação e a sensibilidade.
O conferencista destacou igualmente o papel dos professores enquanto mediadores culturais e intelectuais,
afirmando que estes devem ser capazes de “seduzir” os alunos para o conhecimento, despertando a curiosidade,
a inquietação intelectual e o prazer da descoberta. Referiu ainda que não existe mundo sem o ser humano, uma
vez que é este quem, através da linguagem, atribui nome, significado e compreensão à realidade que o rodeia.
A propósito da leitura de poesia, defendeu que o leitor não deve procurar conhecer ou desvendar o autor como
principal objetivo da interpretação. A poesia só se concretiza plenamente quando suscita emoções, reflexões e
significados em quem a lê. É no encontro entre o texto e a experiência individual do leitor que o poema ganha
vida, tornando-se uma experiência única e profundamente humana.
Nascido em Lisboa, em 1976, António Carlos Cortez é autor de uma vasta obra poética e ensaística, colaborando
regularmente com diversas publicações de referência nas áreas da cultura, da literatura e da educação. Entre as
suas obras mais recentes destacam-se Condor, O Fim da Educação: Crise, Crítica, Ensino e Utopia e Para Ler
Camões: Ensaios sobre Camões Lírico, 35 Poemas Comentados.
Com esta primeira conferência do ano letivo, o St. Paul’s School reafirma o seu compromisso com uma educação
humanista, crítica e integral, capaz de preparar os alunos para os desafios do futuro sem perder de vista os valores,
a cultura, a imaginação e a dimensão humana que sustentam uma sociedade mais consciente, equilibrada e
participativa.
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